Depoimento de Mauricio Code


''Jurema, minha avó paterna, sempre foi uma figura, no mínimo, engraçada. Carinhosa e valente, descendente de italianos, gordinha, bochechas vermelhas, cabelos brancos e uma infinita sabedoria.
Agricultora e dona de casa, morava na roça, lá no interior do Rio Grande do Sul.

Ela nunca teve acesso aos discos e videoclipes de Michael Jackson. As únicas vezes que ela o viu, foi na TV ou através de mim, seu amado neto.

Com uma ignorância ingênua, daquelas pessoas que não conseguem diferenciar a atriz da novela e sua personagem, para a minha avó, Michael era meu amigo. Então, como ela sabia da minha paixão, sempre que nos encontrávamos, ela perguntava: “E o Maico, está bem?” 

Michael sempre foi como mais um membro de minha família. Lembro que um dia entre 1984 e 1985, acho que eu devia ter uns 8, 10 anos, ela entrou no meu quarto e viu o vinil do Thriller e disse: “Mas que negro lindo, é teu amigo, meu netinho?” 

E eu, criança boba respondi que “SIM”, expliquei que ele era cantor nos Estados Unidos (que eu nem sabia onde ficava) e coloquei o disco para ela ouvir. Lembro que ela adorou, mas disse: “Eu não entendo nada do que ele está cantando...” e eu ri. Mas eu também não entendia!

De dois em dois meses, eu, meus pais e meu irmão, íamos para a fazenda dos meus avós, e a tarde, depois do farto almoço, que geralmente era um churrascão, colocávamos fitas cassete para rodar no toca-fitas do carro. E tocávamos Michael, é claro.

Passaram-se muitos e muitos anos e em 1993 meus avós vieram nos visitar! Nessa época, Michael havia lançado o álbum Dangerous (1991), eu tinha 16 anos e já estava com cabelos compridos até os ombros, começando a me apresentar como cover.

Em meu quarto haviam muitos quadros de Michael em várias épocas, mas o que chamava mais a atenção, era um quadro IMENSO com a imagem dele ao lado da pantera negra de Black or White.

Meus avós vieram nos visitar e ao entrar em meu quarto, minha avó, vendo o quadro gigante, logo disse: “Que moça mais linda! Mas que perigo desse bicho atacar ela...”

Eu respondi: “Vovó, esse é o Michael!”

Ela riu, questionou, duvidou, demorou uns 5 minutos para entender e acreditar que aquela figura andrógina era o “negro lindo” que ela havia elogiado há anos atrás, mas não sem antes ouvir minhas explicações sobre o vitiligo (citando um vizinho dela que tinha a mesma doença), as humilhações vindas do próprio pai, que levaram Michael a mudar drasticamente sua aparência e as razões que eu encontrava para justificar. 

Também expliquei que a pantera havia sido “domesticada” e não oferecia perigo a ele. Então, ao final da conversa, ela complementou: “Que coisa triste, um homem tão conhecido e tão ‘cheio de dinheiro’ passar por essas coisas... Mas tu ainda gostas dele assim?” E eu respondi: “É como ele diz numa música dele, vovó... Se você quer ser meu irmão, não importa se você é preto ou branco”.

Depois disso, nunca mais falamos no assunto, a não ser em 1997, quando eu resolvi gravar o videoclipe de Save Me, uma dance music que compus e que rodou nas FMS do país, chegando a ser “a melhor da hora” em várias rádios.

Quando o videoclipe ficou pronto, fomos até a fazenda de meus avós com um videocassete nas mãos e reunimos a família para assistir.

Quando começamos a rodar a VHS, minha avó se emocionou ao ver o neto “na televisão”. Para ela, o videoclipe estava sendo exibido em rede nacional. Não tivemos coragem de explicar que não, pois não queríamos destruir aquele momento mágico para ela. 

Emocionada e com lágrimas nos olhos, ela disse: “Então agora meu netinho vai ser tão conhecido quanto o ‘Maico’!” e expliquei que não era bem assim, que ainda precisava gravar outras músicas, mas que eu não teria dinheiro para isso.

Minha avó, que vivia do dinheirinho da aposentadoria, logo gritou: “Eu pago! Se é para ver meu netinho feliz, eu pago!”

Lógico que nunca aceitei que ela pagasse, pois nesse dia, recebi um dos maiores presentes da minha vida. A certeza de que minha avó REALMENTE me amava.

Com o passar dos anos, minha carreira como cantor foi ficando para trás, justamente pelo fato de eu ter entendido que eu JAMAIS conseguiria compor e gravar algo tão genial quanto às músicas de Michael. Os álbuns dele vinham recheados de composições tão genialmente complexas e populares, que ao mesmo tempo me motivavam a continuar produzindo, mas me faziam ver que faltava MUITO para eu me considerar minimamente “bom”.

Infelizmente, em 13 de dezembro de 2008, época em que eu já morava aqui no Rio, minha querida avó foi para o Céu. Eu havia ganhado um concurso cultural para assistir Madonna (minha cantora favorita) ao vivo no Maracanã no dia 14 de dezembro.

Dois pares de ingresso para a área VIP na mão, tudo pronto, mas uma dúvida: Eu não deveria estar de luto? Fui criado no catolicismo, então, o luto sempre foi algo importante em minha vida. Um sinal de respeito por quem se foi.

No dia do show, poucas horas antes de Madonna pisar no palco, liguei para a minha mãe e perguntei: “O que eu faço mãe?”

Minha mãe, sabiamente, respondeu: “A ‘vovó’ ia querer que você fosse... Ela sabia que você esperou a vida inteira para ver Michael e Madonna pessoalmente... Vá e pense que ela estará lá contigo!”

E então, fui... Foi um dos momentos mais memoráveis da minha vida!

Quando Michael anunciou This is It em 2009, participei de outra promoção cultural, desta vez através de um vídeo que seria escolhido ao lado de outros nove para que os ganhadores fossem assistir ao primeiro show em Londres, com direito a foto ao lado de Michael no camarim.

Por sorte, destino, milagre ou ajuda de Deus, fiquei entre os 3 primeiros lugares e estava pronto para, finalmente, conhecer Michael.

E então, poucos dias antes de eu realizar o maior sonho de minha vida, Michael se foi. Já perdi amores, amigos, já perdi muitas coisas na vida, mas minhas maiores perdas foram minha amada avó e meu querido amigo Michael.

Como há anos não vou ao Sul, na minha cabeça, minha avó continua lá, com seu olhar doce, sua voz alta, sua força e seu amor infinito, da mesma forma que, por muitas vezes, prefiro mentir para mim mesmo que Michael continua vivo e brincando em Neverland.

As vezes penso que ele e minha avó se encontraram e que conseguem conversar na mesma língua e que estão no Céu olhando por mim e por minha família... Este sentimento é doloroso, mas acalenta minha alma.

O que sei é que um dia, estaremos todos juntos novamente: Eu, Michael Jackson, minha avó e a música.''

Mauricio Code (depoimento de fã)


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