O jornalista Alex Gernandt recorda sua viagem ao Brasil

O diretor Spike Lee com Michael Jackson no Brasil

''É 11 de Fevereiro de 1996 e eu me encontro em uma favela de grande altitude no sul da metrópole de onze milhões do Rio de Janeiro chamada Dona Marta. É uma das comunidades mais perigosas do mundo. O caminho para Dona Marta é tão íngreme que temos que empurrar a nossa van, cheia de equipamentos de vídeo e fotografia, nos últimos metros.

Somos eu [o repórter da revista Bravo], o fotógrafo Fryderyk Gabowiczeu e a nossa missão: uma reportagem exclusiva das filmagens do novo vídeo de Michael Jackson They Don't Care About Us, que - para combinar o texto da canção de protesto contra a injustiça social - deve ser gravado aqui pelo diretor estelar Spike Lee [o mesmo de Malcolm X].

Ao longo das estreitas vielas e escadas aninhadas, há um quadro desolador: Cabanas de lata enferrujadas e búnqueres de cimento sem adornos, onde os habitantes dormem no solo arenoso. As 12.000 pessoas que vivem aqui em espaços restritos lutam diariamente para sobreviver. A luz elétrica, a eliminação regular de resíduos ou um sistema de esgotos funcionando não existe, de acordo com o cheiro.

Michael sabe exatamente o que está a caçar. Ele escolheu a comunidade Dona Marta para filmagem de vídeo. Por motivos de segurança ele chega de helicóptero, que aterrissa em um campo de esportes empoeirado no ponto mais alto da favela.

Os moradores se apressam a vislumbrar o cantor. Quando o veem, se alegram: 
"Michael! Michael!''

Um cara pendurou uma toalha de banho com uma frase na janela de uma casa de tijolos à vista. Centenas de policiais militares fortemente armados estão posicionados. Há violência aqui no surto social e, claro, não deve acontecer nada ao Rei do Pop. Mas as pessoas acolhem pacificamente Michael: "Bem vindo ao mundo, não ao maravilhoso, mas ao humilde mundo dos pobres." 


Escoltado pelos seus guarda-costas, Jackson sobe cuidadosamente ao longo dos degraus íngremes relacionados até o centro da colina. Escolhe um visual casual para as filmagens: calças jeans, uma camiseta branca com sinal de paz e logotipo do grupo de percussão brasileiro Olodum, que também pode ser visto no vídeo. As meias brancas obrigatórias, os calçados e os óculos de sol Ray-Ban.

Uma vez Michael mesmo me contou o segredo por trás destas meias brancas e suas calças aluviais: "Então você pode ver meus passos de dança em cada show até a última fila!"

Eu aguardo em frente à enfermaria e assisto enquanto três helicópteros do canal TV Globo se levantam. Eles ficam no ar mesmo acima de nós. Os paparazzi da TV esperam em filmes exclusivos lá em cima, porque eles não estão autorizados a participar aqui.

O barulho é ensurdecedor. Você acharia que isso seria uma sequência do filme Apocalipse Now, em vez de um vídeo de Michael Jackson. O cantor sai, completamente impressionado com o cenário. E parece que ele tem somente o vídeo dele em mente.

Os espectadores se reuniram ao redor do local, sentados perto das paredes, metade pendurados fora das janelas. Michael faz um aceno a eles, alguns chegam para abraçar ele. No final, Michael sobe para o telhado da enfermaria, onde estão instaladas enormes caixas, de onde a canção They Don't Care About Us ressoa contra o barulho do helicóptero.

O diretor Spike Lee grita "ação!", a porta se abaixa e Michael lança a sua atuação. Canta, grita, dança, levanta o soco no ar e arranca a camiseta sob os gritos da multidão. Para garantir a segurança no set, Spike Lee finalmente teve uma ideia inteligente: além das centenas de policiais militares, ele contratou cerca de 50 MORADORES MASCULINOS DA COMUNIDADE, muitos dos quais provenientes do tráfico da droga, como forças de segurança.

"Cuidado, tudo bem" ele dizia antes de começar as filmagens, dando a cada um deles cinquenta dólares e uma camiseta com a inscrição ''Michael Jackson Security" [Segurança do Michael Jackson]. Isso impressionou os caras da pesada.

Na favela em risco de incêndio - esta que era uma zona proibida para os turistas - ficou em silêncio pelo menos para o momento das filmagens por volta das 16:30.

O Gerente Bob Jones me dá a oportunidade de falar brevemente com Michael agora enquanto o seu estilista controla o ajuste da roupa. O cantor me vê chegar, leva a sua esponja para a maquiagem. E ele mantém um sorriso travesso no rosto. Depois ri meio morto, me abraça amigavelmente. "Alex, você veio da Alemanha só para me ver?" ele realmente quer dizer. Estou honrado.

Alex Gernandt com Michael Jackson no Brasil

É noite e, ao longe, as luzes do Rio brilham. Mais de cinco horas de filmagem estão nas nossas costas, as cenas estão guardadas, sem acidentes. Jackson se manteve disciplinado até o último segundo. Vamos subir os degraus íngremes onde esperam helicópteros e vans. Todos estão exaustos, incluindo Michael. Ele diz ''olá'' para as pessoas e depois desaparece de helicóptero. De volta ao Rio Palace Hotel, para baixo no Copacabana. Em outro mundo.''



Por Alex Gernandt (editor da revista alemã Bravo)

Fonte: Michael Jackson FanSquare • Italia

7 comentários:

  1. Eu sempre quis saber como foi que o pessoal de Michael Jackson descobriu essa favela

    Essa visão sobre a situação crítica do Brasil é vergonhosa pra nós. De certa forma, dá pra entender o Pelé não querer deixar ele gravar o vídeo lá... mas, por outro lado, foi uma maneira de conscientizar as pessoas e isso é muito necessário!

    Pode ser meio chato o que eu vou dizer, mas é um questionamento sincero, tá?
    Se Michael já lidou tantas vezes com pessoas perigosas em seus trabalhos (Beat It, Bad, They Don't Care About Us) e era respeitado, será que se ele fosse condenado, os presos iam ter respeito também e não fariam nada contra ele?
    Apesar de saber da sua inocência, era impossível não ter medo de uma injustiça, antes do veredito. E ele ser maltratado na cadeia era o maior deles pra mim, mas como MJ já tinha essas experiências com pessoas desse tipo, talvez isso pudesse não acontecer...

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    1. Não tenho dúvidas de que coiaas horríveis poderiam acontecer para ele, dentro de uma prisão
      Deus o protegeu dessa parte que seria um inominável pesadelo.

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  2. Que bacana esse depoimento de Alex Gernandt sobre as gravações do curta T.D.C.A.U. no Morro Dona Marta - Rio de Janeiro. Tenho imenso carinho e gratidão por ele, que sempre tratou Michael com muito respeito. Eu não sabia ou não me lembrava de que ele tinha vindo ao Brasil naquela ocasião.

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    1. Então... esta foto do Alex Gernandt está presente ''legendada no Brasil'' nos posts ''O Rei no Brasil'' e na página extra do blog, dedicada inteiramente à passagem de Michael pelo Brasil. Com certeza você deve ter passado os olhos por ela noutro momento. ;)

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  3. Ele ficou honrado pela visita e nós ficamos honrados em tê-lo aqui. Rosane, aproveitando pra dizer q não sou de participar dos comentários(venho aqui tds os dias antes de dormir rs) mas não queria q passasse mais um dia sem dizer: Obrigada por tudo! Por eternizar nosso anjo a cada dia. Você é muito importante pra nós! Deus te abençoe!

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    1. Que bom começar a manhã de domingo com palavras tão carinhosas! 🌻
      Obrigada por acompanhar o blog!
      Bem vinda aos comentários! Bjs.

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  4. Adorei a matéria amiga, obrigada Angel por trazer mais informações sobre essa vinda do Michael ao nBrasil gostei de saber mais 😊😊

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

*Bem-vindos, Moonwalkers! Este é um espaço de amor à memória de Michael Jackson. Os comentários são moderados e estarão visíveis tão logo eu esteja on-line. [Rosane, admin. do blog]