
Na fotografia acima, Michael Jackson com Bruce Swedien (de camiseta preta, ao centro)
e familiares em foto do arquivo pessoal de Bruce. O cão preto é o Max. Anos 80.
Bruce Swedien foi o engenheiro de som favorito de
Michael Jackson e de seu produtor Quincy Jones, entre muitos outros
Bruce Swedien se considera um homem de sorte. Como o responsável pela mixagem de som de Thriller, de Michael Jackson, álbum que mantém seu status de mais vendido no Guinness Book of World Records há mais de 25 anos, é inegável que ele estava no lugar certo na hora certa, e com um currículo desses, poucas portas devem ter se fechado para ele desde então!
Mas se olharmos além dos números de vendas milionárias de Thriller, fica claro que a história de Swedien vai muito além da sorte: embora o primeiro de seus cinco prêmios Grammy tenha vindo com Thriller, seus trabalhos com Quincy Jones e George Benson já haviam lhe rendido três indicações para Melhor Engenharia de Som antes disso.
Filho único de músicos com formação clássica, ele não só recebeu uma sólida educação musical, como também teve apoio incondicional quando o presente de aniversário de 10 anos, um gravador de discos, revelou a força de sua verdadeira vocação.
Aos 14 anos, passava as férias gravando todos que lhe apareciam e chegou a montar sua própria estação de rádio para transmitir as gravações para a vizinhança!
Aos 19, já havia trabalhado para Tommy Dorsey e estava montando seu próprio estúdio comercial em um antigo cinema em sua cidade natal, Minneapolis.
Em 1957, aos 21 anos, já gravava profissionalmente a Orquestra Sinfônica de Chicago para a RCA Victor, antes de se mudar para a Universal Studios no ano seguinte, juntando-se a Bill Putnam em seus experimentos pioneiros com as primeiras técnicas de estéreo e multipista.
Tão Musical que Dói
Alguns anos depois de Bruce Swedien se juntar à Universal Studios, Bill Putnam foi para a Califórnia construir seus estúdios lá. Seu lugar como mentor musical do jovem engenheiro, no entanto, foi rapidamente preenchido pelo promissor compositor, arranjador e produtor Quincy Jones.
"Você sabe o quão sortudo eu sou por ter trabalhado com Quincy?", pergunta Bruce Swedien. "Quincy é tão musical que chega a doer, e seu conhecimento é tão completo. Ele estudou orquestração em Paris com Nadia Boulanger, que também ensinou pessoas como Ravel, e Quincy era um aluno brilhante.
Deixe-me dar um exemplo. Quincy e eu trabalhamos juntos pela primeira vez com Michael Jackson no filme The Wiz. Estávamos morando juntos em um hotel em Manhattan e íamos ao Estúdio A do A&R Studios. Tínhamos uma grande sessão ao meio-dia de segunda-feira para gravar algumas das músicas com uma grande orquestra de 70 ou 80 músicos, e tínhamos que sair para o estúdio às 10h da manhã. Na noite anterior,
Quincy e eu tínhamos convidados para jantar no hotel, e ele ainda nem tinha começado a orquestração dos créditos de abertura. Eu estava ficando um pouco nervoso, mas ele disse para eu não me preocupar. Por volta das quatro da manhã, acordei e notei que todas as luzes do apartamento estavam acesas embaixo da minha porta.
Lá estava Quincy na mesa de jantar com um monte de folhas de partitura, escrevendo orquestrações. Eu disse: 'Quincy, temos que sair logo!', mas ele apenas disse: 'Não se preocupe', então voltei para a cama."
Outra foto da sessão de mixagem de Thriller, mostrando Swedien trabalhando com o
produtor/arranjador Quincy Jones (à direita) e o assistente de Swedien, Ed Cherney (à esquerda).
Por volta das nove horas, levantei-me novamente e Quincy me disse: 'Está tudo pronto'. Não havia nem piano nem violão no apartamento; só Quincy e sua partitura! Fomos para o estúdio e Quincy entregou a partitura aos copistas.
Ele nem queria reger — havia contratado um maestro porque queria estar na sala de controle comigo. O maestro deu a primeira batida, a orquestra tocou a abertura inteira e não havia uma única nota fora do lugar. Ainda me arrepio só de pensar nisso!"
Na época de seu primeiro encontro com Michael Jackson, Swedien já havia gravado com Count Basie, Stan Kenton, Duke Ellington, Woody Herman, Oscar Peterson, Sarah Vaughan e Dinah Washington pela Universal, antes de se tornar freelancer em 1967 e adicionar outros artistas como Jackie Wilson, Buddy Miles, Tyrone Davis e The Chi-Lites ao seu currículo.
Portanto, quando surgiu a oportunidade de trabalhar com Quincy Jones e o compositor Rod Temperton no álbum de amadurecimento de Jackson, Off The Wall, não há dúvida de que Bruce Swedien já era um músico consagrado e bem-sucedido por mérito próprio. Sorte? Nem pense nisso!
A emoção da Acusonic
Quando as sessões de gravação de Thriller começaram abril de 1982, o quinto álbum solo de Jackson, Off The Wall, já havia alcançado grande sucesso comercial, tornando-se o primeiro álbum solo a gerar quatro singles no Top 10 dos EUA e rendendo ao cantor seus primeiros Grammys em mais de uma década.
Então, como foi possível que a mesma equipe de produção criasse um sucessor que superasse as vendas estimadas em 20 milhões de cópias de Off The Wall em cinco vezes?
Uma observação retrospectiva sobre o assunto, feita por Quincy Jones, sempre me intrigou particularmente: "Tínhamos que deixar espaço para Deus passar pela sala". Pedi a Bruce Swedien que explicasse o que isso significava na prática.
"Ele queria deixar espaço para o inesperado acontecer", explica. "Por exemplo, me deram liberdade para escolher os microfones, e ninguém disse nada. Eu simplesmente fiz. Por exemplo, usei um Shure SM7 na maioria dos vocais principais do Michael — 'Billie Jean', 'The Way You Make Me Feel' — e, nossa, isso causou bastante surpresa!
Mas eu adoro esse microfone e tenho seis deles. Michael, Quincy e Rod também foram espertos o suficiente para me deixar em paz enquanto eu mixava, e isso significava que eu fazia o meu melhor trabalho. Eles saíam da sala e eu organizava tudo, depois voltavam, ouvíamos e fazíamos pequenos ajustes, mas não me lembro de ter exagerado muito."
Uma das folhas de faixas originais dos álbuns Thriller. Aqui, como em
outros lugares, todas as fontes foram gravadas em estéreo.
Fãs atentos que examinaram minuciosamente as notas do encarte de Thriller rapidamente perceberam a frase "Gravado e mixado por Bruce Swedien usando o Processo de Gravação Acusonic, e tem havido especulações contínuas de que algum misterioso dispositivo de estúdio teria dado ao disco de Jackson uma vantagem, apesar do engenheiro ter formalmente encerrado o assunto em uma palestra em 1984.
O Processo de Gravação Acusonic (e o sinônimo Processo de Gravação Quantum Range) não era algum tipo de inovação de processamento, mas sim um nome para a maneira como Swedien sincronizava várias máquinas de fita de 24 canais para acessar uma quantidade praticamente ilimitada de canais.
Esse tipo de experimentação em estúdio está presente em todos os discos de Michael Jackson e frequentemente é confundido com efeitos eletrônicos de pós-produção.
O efeito especial na interjeição "Don't think twice!" no segundo verso de Billie Jean, por exemplo, foi criado cantando através de um tubo de papelão de um metro e meio de comprimento.
Capa para bumbo feita sob medida para Bruce Swedien.
Ao contrário do que muitos pensam, a bateria de Billie Jean não é eletrônica, mas uma única gravação ao vivo feita com separação extrema. Para isso, Bruce Swedien criou recursos sob medida: isolou o chimbal da caixa com um painel de madeira e mu-metal de cerca de 30 centímetros quadrados e desenvolveu uma capa exclusiva para o bumbo.
"Foi a primeira vez que desmontei o bumbo", contou ele. "Retirei a pele frontal, coloquei um bloco de concreto especial para dar peso e mandei fazer uma capa de tecido para estofados com um zíper para o microfone passar."
O punch característico vinha também da plataforma que Swedien havia projetado ainda em Rock With You: um tablado de madeira reforçada de 2,4 metros quadrados, elevado 25 centímetros do chão.
"O motivo pelo qual eu queria a bateria elevada do chão", escreveu ele em sua autobiografia, Make Mine Music, "é para evitar que os sons graves da bateria (como o bumbo e os tons) se acoplassem com a superfície do chão e entrassem na área de captação dos microfones dos outros instrumentos na sessão.
Essa captação secundária da extremidade grave da bateria pode atravessar paredes! Ao colocar a bateria na minha plataforma, esses sons graves nunca tiveram a chance de se conectar com o chão e criar uma captação secundária obscura, fora do microfone."
Bruce Swedien nunca teve interesse em capturar uma voz "pura":
"Não sou o tipo de pessoa que, com um artista como Michael Jackson, quer vocais imaculados e puros. Acho que isso seria bastante monótono, pois há muita 'vibe de rua' no que Michael faz."
Rock With You também é uma excelente demonstração de outra técnica criativa de produção ao vivo de Swedien. Cada uma das linhas vocais de apoio foi gravada duas vezes com um microfone próximo, depois Jackson se afastou alguns passos do microfone para uma segunda gravação, enquanto Swedien aumentava o ganho do pré-amplificador para igualar o nível das gravações anteriores.
Finalmente, uma gravação ainda mais distante foi feita usando um par estéreo Blumlein, novamente com o nível ajustado. O resultado: uma maior densidade de reflexões iniciais, o que cria uma profundidade e amplitude naturais para o campo sonoro.
As reflexões iniciais também foram uma parte importante do som vocal principal nos discos posteriores de Jackson, a partir de Bad, onde o cantor era posicionado no pedestal de bateria mencionado anteriormente por Swedien para amplificar o som de sua dança e, em seguida, cercado por Tube Traps (o apelido comum em estúdio para as Studio Traps tubulares da ASC).
Essa abordagem não apenas criava um padrão denso e controlável de reflexões iniciais para dar suporte aos sons do canto e da dança, mas também mantinha o som no microfone muito mais consistente enquanto Jackson se movia dançando.
"O Tube Trap, para mim, é uma das melhores coisas desde o pão fatiado", ele comenta entusiasmado. "Michael adorava meus Tube Traps — ele era fascinado por eles. Nós experimentávamos todos os tipos de configurações diferentes com os Tube Traps para obter um campo sonoro realmente interessante. Eles economizam muito tempo."
Acima: as duas biografias publicadas pelo engenheiro de som Bruce Swedien.
Transientes e Compressão
Embora o processo de gravação Acusonic tenha claramente desempenhado um papel importante na obtenção do som único, amplo e percussivo de Thriller, fica claro, ao conversar com Bruce Swedien, que a receita vai além de fitas novas.
O mérito também deve ser atribuído à sua coleção pessoal de microfones clássicos, que ele levava consigo para todas as suas sessões de gravação.
"Todos os meus microfones foram comprados novos, e todos os mais importantes têm números de série sequenciais. Ninguém mais os usou, então estão todos em ótimas condições. Esse é parte do segredo."
Quando se trata de técnicas específicas de mixagem, Swedien se mostra difícil de definir, não por qualquer postura defensiva de sua parte, mas sim porque ele sente que não racionaliza o processo e confia o máximo possível na intuição.
"Você não pode pré-pensar escolhas como essas. Esse é um erro que vejo com frequência, e fico arrasado com o que ouço nas mixagens de algumas gravações modernas, porque é óbvio que as pessoas estão pensando no aspecto técnico e não na música. Você precisa fazer essa separação logo no início da sua carreira: a parte técnica não tem importância. Por exemplo, geralmente começo pela seção rítmica, mas isso depende da música. Não existem regras específicas que você possa aplicar. Se você fizer isso, vai se complicar, porque cada música é diferente."
No entanto, ele deixa claro em sua autobiografia que costuma consultar seus primeiros esboços de mixagem para se lembrar de suas reações instintivas iniciais, reações nas quais aprendeu a confiar com a experiência.
"A clareza da letra e a paixão da música são o que mais importa para mim, e é muito fácil deixar esses valores de lado e simplesmente mixar até que eles desapareçam.
Por exemplo, fiz 91 mixagens de 'Billie Jean', e finalmente Quincy disse: 'Vamos voltar e ouvir a mixagem número dois'. E nós ouvimos, e ficamos impressionados! Eu tinha mixado demais aquela música, a ponto de deixá-la horrível, então a mixagem que entrou no disco foi a número dois."
Sobre gravar Michael Jackson, Swedien era direto: "Dá pra dizer que quase qualquer chimpanzé poderia gravar o Michael. Ele é um profissional inacreditável!"
Bruce Swedien no console Harrison no Westlake Studios, em uma
foto tirada durante a mixagem de Thriller, de Michael Jackson.
Sobre gravar Michael Jackson, Swedien era direto: "Dá pra dizer que quase qualquer chimpanzé poderia gravar o Michael. Ele é um profissional inacreditável!"
Ele explica: "Michael não era um vocalista comum. No estúdio, mal se percebia que ele estava lá — extremamente quieto, educado e gentil — mas ele se importava muito com a qualidade do que fazíamos. Não só a qualidade técnica, mas a musicalidade, a afinação, as letras, os arranjos.
Por exemplo, acho que nunca vi o Michael com a letra na frente dele. Ele sempre passava a noite anterior memorizando e cantava de memória. E todo dia que gravávamos vocais, seu preparador vocal estava lá, e ele aquecia a voz por uma hora antes. Isso fez toda a diferença."
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CARTAS PARA MICHAEL
Trechos selecionados na matéria Bruce Swedien: Recording Michael Jackson | Sound on Sound
Pesquisa, tradução e edição: Rosane M.
Curadoria: Cartas para Michael @ 2026. Proibida reprodução sem crédito.
