The King of Style: Dressing Michael Jackson (36)


Capítulo 8

Sem limites / Os sapatos de inclinação

''Há um ditado em Hollywood: "Se você trabalha muito rápido, você vai ficar sem trabalho." Mas Dennis e eu desafiávamos essa lógica, porque nós trabalhávamos contra o relógio 30 horas seguidas, se quiséssemos que as coisas ficassem prontas.

E parecia que quanto mais complicado e estranho fosse a pedido de Michael, menos tempo nós teríamos para executar.

"Até onde podemos ir com isso?" Ele frequentemente perguntava. Sua mente, como o céu, não conhecia limites ou barreiras. As limitações, eu aprendi com ele, ou são auto-impostas ou vêm da visão limitada dos outros.

Michael amava o Mágico de Oz por várias razões: sua história, sua mensagem e o espírito pioneiro do filme. Quando o Homem de Lata, originalmente interpretado por Buddy Ebsen e, mais tarde, por Jack Haley, cantou com todo seu coração em sua vacuidade, o público foi surpreendido com a sua capacidade mágica de se inclinar para frente, esquerda e direita, sem cair. Foi um movimento suave que Michael levaria a um outro nível e endossaria no sentido mais literal.

No vídeo Smooth Criminal de 1987, Michael interpretou o que se chamaria ''o movimento de inclinação''. Graças a um pouco de magia, ele foi capaz de inclinar-se quarenta e cinco graus para frente e para trás novamente.

Quando o diretor disse "corta!" o brilho em seus olhos poderia ter diamantes lapidados, de tão feliz que estava. Eu estava no set e eu vi tudo antes que chegasse ao seu trailler, alucinado, ''Bush, você viu isso? Caramba, isso me machucou!''

Na gíria de Michael, ''ser machucado'' significava uma coisa boa; o "máximo".

Assim, a sorte estava lançada. Dennis e eu teríamos a responsabilidade de fazer esse movimento e, antes de começar, eu sabia que se alguém pudesse fazer com que Michael se inclinasse no palco sem os truques usados no cinema, esse era Dennis.

Dennis raramente aparecia no set, mas, felizmente, no dia em que se gravou a inclinação, ele estava. Assistiu tudo e lhe pareceu como um patinador de gelo no ponto de partida. Ele pensou que deveria haver uma maneira de prender uma bota o suficiente para suportar um movimento tão impossível quanto esse.

Dennis me disse que esperava conseguir. "É o meu desafio", me confidenciou.

O desafio levou três meses. Desenhando e revisando, o artista deu lugar ao engenheiro, até que surgiu o inventor dentro de Dennis. As botas foram projetadas para se amarrar nas canelas, segurando e imobilizando o tornozelo. O exterior parecia um Florsheim normal. Debaixo estavam todos os mecanismos. No centro das sapatas, as placas de aço equipadas com parafusos que saem do chão.







Esta criação deu a Dennis toda a confiança para chamar Michael e lhe pedir que se preparasse para a inclinação pela primeira vez. Em uma hora, empacotamos os sapatos com uma placa de madeira usada como solo, onde se colocam os parafusos, e nos dirigimos para a Record One, o estúdio onde Michael tinha fixado a sua residência durante a gravação.

Devido ao tráfego em Los Angeles, chegamos às 07 horas. Grande erro. Quando o recepcionista nos cumprimentou, ele nos alertou que Michael não sairia do seu quarto antes das 07:30, quando terminaria Os Simpsons.

Dennis ficou chateado e com razão. Embora, olhando para trás, eu não sei por que ficamos surpreendidos. Sair na hora do rush e esquecermos que Os Simpsons eram sagrados.

Animado, certamente por ter assistido a série, Michael entrou como um raio na recepção onde Dennis e eu estávamos sentados e inquietos.

"O que vocês têm aí?" Ele disse, olhando para a nossa maleta, enquanto entrava na sala. Ele sabia o que estava lá, mas tinha a certeza de que isso parecia mais uma apresentação do que uma entrega.

"Gostaria de se inclinar hoje?", perguntei.

Dennis ficou parado silenciosa e estoicamente, enquanto tirava os sapatos e ajudava Michael a colocá-los. Ainda que nós fizéssemos algo sem precedentes, Michael, caprichoso, protestou, "Bush, isso não vai funcionar", levantando as mãos como uma criança lutando com seu pai, enquanto fazia a lição de casa no domingo à noite.

"Michael", eu disse na minha voz mais suave, "fique quieto. Eu sei que você não gosta, mas você tem que experimentá-los."

"Eu tenho coisas para fazer", continuou ele. "Isso não vai funcionar."

Dennis rompeu seu silêncio com uma nota de razão e um desafio, "Se você não fizer o teste, Michael, nunca saberemos. Você nunca duvidou de algo novo antes, então, por quê agora?"

Era como se Dennis tivesse pronunciado a palavra mágica, porque, como abracadabra, a atitude de Michael mudou em um piscar de olhos. Foi um daqueles raros momentos em que ele precisou ser lembrado de sua própria crença na magia.

As botas já estavam apertadas em torno de seus tornozelos, sem nenhuma comparação com [os sapatos] Florsheims, e quando pensamos que já tinha se acalmado, nos perguntou de novo, ''Eu vou ter que dançar com esses?''

"Michael," Dennis pediu. ''fique sobre essa madeira e, quando sentir que as botas estão encaixadas nos parafusos, levante o peito para o céu, aperta o abdômen e se incline até o Bush.''

E foi isso exatamente o que Michael fez. Ele estufou o peito como um pavão, endureceu e, com fé cega, se inclinou para frente e para trás com um suspiro. Apesar de termos feito por nós mesmos, ao vê-lo em ação, nunca nos saciava.

"Eu não posso acreditar que vocês fizeram este trabalho!". Michael nos abraçou e, em seguida, deu um abraço extra de Dennis, acariciando suas costas.

Dennis disse em resposta, "Eu disse que iria funcionar, Michael. Nós viemos testando por uma semana, antes de vir aqui."

E eu tinha as contusões para prová-lo. Duas vezes por dia, todos os dias da semana, eu fazia o papel de Humpty Dumpty. Me inclinava para frente, quando você tem 50% de chance de quebrar o nariz contra a parede, o que te destroça os nervos. Com os olhos abertos, pálpebras esvoaçantes e a cabeça movendo para trás, me colocava rígido e fazia falsas entradas.

"Faça como se você estivesse mergulhando", Dennis me sugeria, para o que eu gritava, "Mas eu não gosto de água!"

Michael não era Humpty Dumpty. Ele estava brincando com esses sapatos, pelo menos, uma hora antes e decidiu nos surpreender com o pensamento já decidido, ''Isso deve ser patenteado''.

Tivemos o desejo de possuir a invenção como um elogio e, por dois meses, fizemos desenhos e descrições necessárias para completar a documentação e enviá-la para os advogados de Michael.

Enquanto isso, continuamos para o próximo destino, Tóquio, onde ele fez a primeira inclinação.

[Nota Bush se enganou ao citar a cidade. A primeira inclinação aconteceu em Kansas City, não em Tokio.]

Eu tinha um buraco no estômago, como nós sempre teríamos que fazer algo, ao vivo, pela primeira vez. Não importa quantas vezes nós praticávamos, eu não sabia que não há nada marcado a fogo, por isso, quando Michael se dirigiu aos parafusos no palco de Kansas City em 23 de Fevereiro de 1988, fiz todo o possível para não fechar os olhos.

Michael era um mestre. Cantando e dançando no centro das atenções, banda ao vivo, dançarinos e dezenas de milhares de pessoas que tentam chegar até você. Ele estava tão concentrado em seus sapatos parafusos deslizantes. E ele se inclinou. Direto. Smooth Criminal eletrizou esta noite.

Smooth Criminal na Dangerous Tour


Michael deixou o palco, ainda tentando recuperar o fôlego, e disse: "Você tem que dar este par ao Dennis".

Dennis jogou a bola e voltou a ele, em comemoração. Peguei os sapatos de inclinação e coloquei os Florsheims atrás de Michael para o próximo número. Como se a pergunta tivesse sido estado dando voltas em sua cabeça durante o show, ele deixou o palco após o final e perguntou, "Eu tenho um outro par de sapatos, certo?"

Assim era Michael, antes de pensar em si mesmo, pensou em Dennis. Dando crédito ao inventor; dando crédito a quem era devido. Assim era Michael, repetidamente dizendo, "Você deve receber o crédito por seu trabalho". E Michael vivia guiado por suas palavras.

video

[No vídeo acima, aconteceu um momento inusitado, quando Michael caiu ao executar o movimento. Situação da qual ele logo se refez com maestria.] 

Mais de uma década depois da Bad Tour, Katie Couric contou em seu programa - Today - que havia sido tornada pública uma patente dos sapatos de inclinação de Michael Jackson.

Até então, os gerentes de Michael tinham estado pagando uma taxa de confidencialidade para evitar coisas desse tipo. Alguém se esqueceu de pagar e foi tornada pública. Eu perguntei se ele se sentia mal sobre isso e ele me disse que não.

"Eu só queria saber por quê, Bush", disse ele. "Deveria ser algo mágico. Por que eles arruinaram para todos?"

"Michael, eu não sei", foi o melhor que eu poderia dizer.

Quando a patente correu através da internet, Dennis e eu a procuramos e ficamos espantados quando lemos, "Método para criar a ilusão de antigravidade. Inventores: Michael J. Jackson, Michael L. Bush e Dennis Tompkins".

Todo esse tempo, Michael tinha compartilhado a patente com a gente. Foi um momento extraordinário e nós confirmamos o crédito para o nosso trabalho quando nós não esperávamos.''

Por Michael Bush (estilista de Michael Jackson)
Extraído do livro The King of Style: Dressing Michael Jackson

Fontes: 
MJHideout
Imagens do meu arquivo

14 comentários:

  1. Esse livro é fantástico, essa passagem traz detalhes importantíssimos sobre essa criação fabulosa. A parceria entre eles foi perfeita, apesar do Dennis e o Bush terem realizado esse feito histórico, o Michael foi a figura principal e idealizador desses projetos genias, a capacidade dele em extrair o máximo dos seus colaboradores, é incrível! Porém, ele soube reconhecer e valorizar muito bem,o trabalho dos profissionais que concretizaram suas ideias.
    É maravilhoso conhecer essas histórias, a leitura desse livro além de ser uma grande satisfação, tbém traz muitos ensinamentos. Ele é um grande mestre, que através de suas grandes realizações, continua a inspirar e servir de exemplo para muita gente. Um gênio se vai, porém sua obra o eterniza!
    E vc, vai acumulando pontos, c/ publicações como esta! \o/ \o/.. Bjo!

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    1. Eu concordo com os teus pontos de vista, Lady.
      Obrigada pela visita e pelo carinho, :)

      Sabe o que me deixa aflita com o movimento ''the lean''?

      Que um dos pés [do Mike ou dos dançarinos] ficasse engatado no parafuso na hora de encerrar o movimento, e assim, ficasse preso. Já pensou? rs

      Outra coisa é que cada um pudesse encontrar rapidamente a sua posição no palco, em meio à dança, luz e movimento. Mas trudo dava certinho!

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    2. Concordo com o que Lady e você disseram, Rosane! Amei saber dos detalhe da criação da "magia" do passo The Lean no palco!

      Merece destaque também a grandeza de Michael Jackson em compartilhar a patente do método com Michael L. Bush e Dennis Tompkins. ♥

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    3. Sabe, eu fiquei triste que alguém na equipe' de Michael relaxou sobre a história da patente, não mantendo atualizado o pagamento da mesma. Era a vontade de Michael que se mantivesse o segredo embora, é claro, a gente ame saber dos detalhes.

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    4. Concordo com você angel.

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  2. Olá Rosane,

    Muito lindo o livro, estou adorando. Embora Michael tenha ficado um pouco chateado com o vazamento do segredo, acho que é importante sabermos da sua genialidade e da competência dos dois na execução. Não esquecendo da sua honestidade em compartilhar a invenção. E, na minha opinião, em hipótese alguma a magia se desfez. Pelo contrário, aumentou.

    O Dennis era bem reservado, mas muito dedicado ao Michael.

    E quanto a queda do Michael é admirável como ele se recompõe e continua o show. Nas mais inusitadas situações, caindo da ponte, com dor, com fãs malucos, ele continua o show, com elegância e maestria, sempre.

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    1. Boa noite, Elisa,
      eu concordo com vc e acho que Michael foi ,muito corajoso em se aventurar ao vivo ao fazer esse movimento... ele era muito auto-confiante, nesse sentido.

      Sim, o Dennis era bem reservado, provavelmente a pessoa perfeita para trabalhar com Bush... três personalidades diferentes que se completavam.

      Tão especial Michael ter lembrado dos créditos aos verdadeiros inventores do mecanismo que permitiu a execução do ''the lean'', acredito que era mesmo uma obrigação moral que ele assim o fizesse, porque deve ter sido bem dificil projetar tal façanha.

      Sobre a queda do Michael, ele deve ter pensado de antemão... ''e se um dia, eu cair?'' ele pensava em tudo! Me lembrou da modelo Gisele Bündchen... certa vez, a sandália dela arrebentou enquanto ela desfilava na passarela, mas ela não perdeu a atitude. e seguiu desfilando mesmo assim.

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    2. olha o pezinho dela aqui

      http://www.purepeople.com.br/noticia/gisele-bundchen-se-despede-das-passarelas-relembre-momentos-marcantes-da-modelo_a51644/9

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  3. Verdade, profissionalismo é tudo.

    E, apesar de parecer fácil, li em outro forum, que é mesmo assim, é preciso muita força e exercício física para conseguir o "the lean". Viva Michael! Acho que ele era muito auto-confiante em muitos sentidos.

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  4. A Leda compartilhou o seguinte video comigo, sobre meu outro comentário. Houve uma vez em que um dos dançarinos ficou com o pé preso, por alguns instantes. que aflição.

    https://www.youtube.com/watch?v=hro7P_gh4cE&app=desktop

    Obrigada, Leda

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    1. Nesse outro video [da Leda] dá para ver melhor ainda, aos 00:34 segundos

      https://www.youtube.com/watch?v=rAagJYxTciY

      ♥♥♥

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  5. Olá amiga, eu é que tenho que agradecer em poder compartilhar desse blog maravilhoso!
    Adorei a matéria, parabéns!
    Fiquei com pena de Michael, tantos ensaios, mas um bailarino entregou a magia.

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    1. Olá, Leda, então... com certeza, foi sem querer, assim como a quase ''queda'' do Mike, no outro video. Mas a magia maior ninguém tira do nosso Rei. :)
      Bj,

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