9 de setembro de 2026

O Rei na Polônia: as memórias de Czesław Czapliński (2/3)

 Michael Jackson, prof. Marek Kwiatkowski, 27 de maio de 1997, 
Parque Real Łazienki em Varsóvia - foto por © Cz. Czapliński    


Esta é a segunda parte das memórias do fotógrafo Czesław Czapliński, na cobertura exclusiva da visita de Michael Jackson à Polônia em 1997. Para ler a parte 1 clique aqui

"Como de costume, liguei a TV assim que acordei. A CNN estava terminando sua transmissão. A penúltima notícia me despertou de repente:

"Segundo informações não confirmadas, o astro pop Michael Jackson chegará a Varsóvia..."

Não ouvi mais nada, apenas vesti qualquer roupa e corri para uma banca de jornal próxima. Comprei todos os jornais e fui para casa. Parece que Michael Jackson realmente desembarcará em Varsóvia amanhã.

Descobri que a administração do World Trade Center Warsaw está preparando a visita do cantor. Por acaso, conheço bem o gerente do centro. Liguei para ele. Jacques Tourel estava visivelmente animado.

"É fantástico que você esteja em Varsóvia!", gritou no telefone. "Pegue sua pasta e venha para o Marriott. Embora Michael só chegue amanhã, seus empresários já estão lá. Estou discutindo os detalhes da visita com eles."

Eu vasculho freneticamente os arquivos, me visto às pressas e faço o check-in no hotel em 15 minutos. São 10h da manhã. A primeira pessoa a quem me apresentam é Wayne, o secretário pessoal, empresário e guarda-costas do astro. Ele trabalha com Michael há 25 anos e é, com razão, considerado seu homem de maior confiança.

Quando digo a Wayne que gostaria de permissão para fotografar Jackson durante toda a sua visita à Polônia, ouço uma resposta bem americana: "Vamos ver o que podemos fazer. Analisaremos sua proposta."

Eu persisto e continuo. Eu não só gostaria de fotografar Jackson, como também quero exclusividade. Quero estar onde quer que ele esteja. Wayne me olha como se eu fosse um alienígena de Star Wars e, com uma voz desprovida da menor emoção, responde:

"Não planejamos nenhuma entrevista ou foto pessoal. Claro, a imprensa poderá fotografar Michael, mas à distância. Assim como acontece em todo o mundo."

Estou um pouco irritado, mas tento manter a calma e explico a Wayne que não tenho interesse em tirar fotos com teleobjetiva em meio a uma multidão de outros fotógrafos. Quero poder mostrar às pessoas um vislumbre da verdade sobre Jackson, e isso só é possível se eu conseguir me aproximar bastante dele.

Como Jackson virá à Polônia para uma visita particular (algo incomum para ele), minhas fotos podem ser o único registro fiel desse evento. Seu valor promocional é inestimável.

Wayne, é claro, não se impressionou nem um pouco com meu argumento. "Vamos ver o que podemos fazer", ele repete à exaustão.

– Haverá uma conferência de imprensa esta noite. Venha e saiba mais.

Durante a coletiva de imprensa, porém, não aprendi nada de novo e ainda não recebi nenhuma resposta definitiva. Estou realmente furioso, porque sei como é fotografar Jackson de perto, em um cenário tão incomum. Todo fotógrafo sonha com isso. Eu não sou exceção.

Embora eu não tivesse buscado a oportunidade de fotografá-lo antes, era apenas porque sabia como isso poderia terminar. Eu só poderia esperar uma resposta: "O escritório de Michael Jackson não permite fotos privadas do cantor". E isso é verdade.

Além de dois, talvez três casos, Jackson nunca teve fotos publicadas por fotógrafos profissionais para outros fins que não a promoção de álbuns ou turnês. Além disso, Jackson, sobre quem todos os tabloides do mundo escrevem constantemente coisas absurdas, de alguma forma não me atraía particularmente.

Com seus chapéus, máscaras e uniformes bizarros, com sua incompreensível predileção por animais selvagens e crianças pequenas, ele parecia uma estrela posada e caprichosa. Ele certamente não era um dos meus ídolos, embora eu gostasse de ouvir algumas de suas músicas.

Depois de uma noite de sonhos inquietos, chego ao Aeroporto de Okęcie. Está cinzento e frio. Está garoando e os organizadores estão em polvorosa. Distribuem narcisos, uma bandeira e um balão para as crianças que esperam na pista. Atrás da cerca, uma multidão de fãs tranquilos segura cartazes: "Michael Jackson Superstar" e "Nós te amamos!".

Tenho três câmeras com lentes curtas e um estoque de filmes. Estou desafiando a sorte e, como meus colegas, espero.

De repente, me surpreendo ao ver o Professor Marek Kwiatkowski, diretor do Parque Real Łazienki, entre aqueles que aguardavam a estrela.

"O que você está fazendo aqui?", pergunto, aproximando-me do meu amigo.

"Eu também estou me perguntando sobre isso", responde o professor. "Se estivessem levando uma urna com as cinzas de Chopin para a Polônia, seria outra história. Mas Michael Jackson..."

Ele acena com a cabeça e acrescenta:
– Tenho que mostrar a ele o Parque Real Łazienki.

Entretanto, ficamos sabendo que o avião está atrasado. Os fãs permanecem impassíveis, os narcisos nas mãos das crianças encharcando-se tristemente. Vejo Jacques Tourel na pista e aceno para ele. Funciona. Eles me chamam com um gesto, e Wayne se aproxima de nós e diz: "Você vai tirar aquelas fotos."

"Tem certeza de que estão todos lá?" Ainda não acredito, e dou uma olhada no pequeno helicóptero Mi-8 que Jackson vai pilotar. Conheço esse tipo. Não comporta mais do que seis ou sete pessoas.

"Sim, todos eles", responde Wayne. "Já falei com a segurança sobre você."

"E eu ganho uma exclusiva?", pergunto a Wayne, importunando-o.

"Pode deixar comigo, só haverá uma câmera de televisão oficial além de você", garante Wayne.

Não pergunto mais nada, porque pela expressão de Wayne percebo que mais uma dúvida minha e ele vai enlouquecer.

O Falcon branco e marrom se aproxima para pousar pontualmente às 13h23. As forças de segurança mantêm fãs, jornalistas e fotógrafos sob controle, o avião para e agentes alfandegários poloneses, guardas de fronteira e Wayne embarcam.

Vinte minutos depois, o próprio Michael Jackson aparece no tapete vermelho. Ele veste calça jeans preta com listras laterais brancas, botas de cowboy de salto alto e um chapéu preto. Sua jaqueta preta trançada é adornada com uma grande medalha de ouro em uma faixa vermelha.

Durante vários minutos, estive tirando fotos, praticamente encostando em Jackson. E percebi que o astro não correspondia exatamente à imagem que eu tinha dele.

Alto, bem-apessoado, com pele muito lisa e saudável. Ele definitivamente não aparenta ter quarenta anos, muito menos ser o resultado daquelas dezenas de cirurgias plásticas que sempre são assunto de fofoca nos tabloides. A primeira impressão é muito agradável.

Após a parte oficial, deve haver uma informal. Michael, isolado pela polícia, caminha em meio à multidão que grita.

Nem tento entender o que está acontecendo. Vejo duas garotas correndo em direção a ele, deixadas passar pelos seguranças, e vejo soldados detendo alguns admiradores "ilegais" que conseguiram romper o cordão de segurança...

De repente, vejo um grande grupo de pessoas se aproximando rapidamente. São os fãs e fotógrafos que não aguentam mais, cada um querendo um pedaço de Jackson. A chuva cai torrencialmente, já está quase escuro.

Pela primeira vez, vejo um Wayne nervoso, fazendo sinais desesperados para Michael ir em direção ao helicóptero que o aguardava. O cantor também os percebe e, de repente, avança com tanta força que chega primeiro ao helicóptero, antes mesmo de Wayne.

Se não fosse pela atenção do cinegrafista e do segundo segurança que puxou Jackson para dentro do helicóptero, o astro teria ido parar em um hospital em vez de em Wilanów. E assim terminou felizmente, com apenas um chapéu pisoteado e um momento de medo.

Meus primeiros retratos de Michael foram tirados de um helicóptero. Parei de contar os rolos de filme que usei. Comecei a gostar de verdade do astro e fiquei encantado por ter a oportunidade de fotografá-lo tão de perto.

Só houve uma vez em que não consegui tirar fotos... na ala de oncologia do hospital na Rua Litewska. Eu nunca tinha estado num lugar como aquele. Não conseguia imaginar o que encontraria lá.

No início, tudo correu como de costume: cumprimentos, gentilezas mútuas. Depois, fomos para a enfermaria. Michael pediu que apenas aqueles cuja presença fosse absolutamente essencial o acompanhassem.

Ele não queria câmeras nem jornalistas; queria estar o mais perto possível, mesmo que por um instante, daquelas crianças, cuja saúde e vidas eram tão efêmeras. Éramos hóspedes bem-vindos, mas também visitantes de outro mundo, desprovidos das preocupações que tanto dominavam aquele lugar.

E de repente aconteceu algo que me fez perceber por que essa visita era tão importante para Michael. Ele sentou-se na cama do hospital e abraçou a criança doente e sem cabelo. O que vi em seus olhos certamente não era um gesto convencional.

Não se tratava de uma estrela que tinha que cumprir uma visita ao hospital porque um empresário exigia. Ele sofreu com aquela criança e sentiu pena dela. Em certo momento, ele entrou no quarto onde um adolescente estava deitado. Não consigo descrever a expressão no rosto do garoto. Alegria? Adoração? Incredulidade?

Na mesa de cabeceira havia um caderno coberto de fotos de Jackson. Essas fotos, recortadas de jornais, eram de baixa qualidade, mal impressas e borradas. E de repente, o próprio protagonista das fotos entrou no quarto do garoto doente. Seria possível pensar em tirar fotos em um momento como aquele?

Michael saiu do hospital profundamente comovido. Quando conversei com o Professor Kwiatkowski mais tarde, ele me disse: "Sabe, eu só vi Jackson como pessoa de verdade na Rua Litewska. Quando ele pediu para ficar sozinho com as crianças."

A despedida no aeroporto foi semelhante à recepção. Uma multidão de fãs, um tapete vermelho, mas em vez de crianças dançando mazurca, havia uma fila de alunos da Academia de Bombeiros em seus uniformes formais. Desta vez, a admiração de Michael pelos uniformes foi além de um simples elogio.

"Por favor, me enviem dois desses", disse ele, e os organizadores anotaram prontamente o pedido. Sei que foi atendido, e a coleção particular de uniformes do astro foi ampliada com dois uniformes de bombeiro da Polônia.

Esses foram alguns dos dias mais emocionantes e exaustivos de toda a minha carreira. O tempo deixou de importar para mim, ou melhor, nunca havia o suficiente. Às vezes, eu me sentia como um repórter de guerra obrigado a tirar uma foto sem pensar duas vezes, sabendo que a situação que estava observando jamais se repetiria.

Estava tão imerso no meu trabalho que só depois da decolagem do avião me dei conta de que tinha tido o privilégio de passar dois dias na companhia da maior estrela pop do mundo. Na companhia de um homem sobre quem eu sabia muito, mas — como se viu — eu não sabia o mais importante: quem ele realmente era.

O Michael Jackson que conheci era diferente daquele dos jornais e da televisão: calmo, quieto e reservado. Ele reagia de uma maneira típica de introvertidos, econômico nas palavras. E, ao mesmo tempo, espontâneo e simples, com uma simplicidade infantil.

Mais tarde, muitas vezes me lembrei de suas reações durante a exibição de um filme sobre Varsóvia, da ternura que demonstrava aos jovens pacientes no hospital da Rua Litewska e de seu encantamento ao avistar um pavão no Parque Real Łazienki.

Também pensei em como uma pessoa se sente sozinha quando é constantemente adorada por multidões histéricas, e no que ela pensa ao ler mais uma "revelação" sobre si mesma nos jornais.

A privacidade era a única coisa que ele podia tentar proteger. E ele tentou fazer isso até o fim da vida. Recusava-se a ser fotografado, raramente dava entrevistas e tinha poucos amigos, embora muitos provavelmente se referissem a ele como *meu amigo Michael*."

— Czesław Czapliński, Varsóvia / Lubiąż, 27-28 V 1997
Foto ©Cz. Czapliński




 

Pesquisa, tradução e edição: Rosane M.

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